domingo, 1 de novembro de 2026Quarto minguante hoje

Meteorito encontrado no Saara é um dos fragmentos de Marte mais antigos já achados na Terra

Batizada de Teghaza 001, a rocha cor-de-rosa de cerca de 800 gramas se formou há mais de 4,1 bilhões de anos e guarda sinais de como a água alterava a crosta do Marte primitivo.

Fatia de meteorito marciano usada em estudos de mineralogia e química de rochas vindas de Marte.
Fatia de meteorito marciano usada em estudos de mineralogia e química de rochas vindas de Marte. · Imagem: NASA / NASA/JPL-Caltech

Quando um meteorito de tom rosado foi encontrado no deserto do Saara, em 2022, ninguém sabia sua idade nem sua origem. Só depois que cientistas financiados pela NASA dataram seus minerais ficou claro que a pedra, de cerca de 800 gramas, era um pedaço de Marte formado há mais de 4,1 bilhões de anos. Isso a coloca entre os meteoritos marcianos mais antigos já encontrados na Terra.

A rocha recebeu o nome de Teghaza 001, em referência à planície de sal no Mali onde foi achada. Ela é uma de aproximadamente 435 rochas vindas do planeta vermelho que existem em coleções terrestres. A primeira caracterização do meteorito foi publicada em um artigo na revista Science. Em junho, outro estudo, publicado na Science Advances, já havia detalhado o conteúdo de água da amostra.

A autora principal do novo artigo, Yang Liu, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, no sul da Califórnia, contou que a equipe só percebeu o caráter único da rocha depois de examiná-la com cuidado. Segundo ela, um dos revisores do trabalho chegou a chamar o meteorito de "Pedra de Roseta" de Marte, em alusão à peça que permitiu decifrar os hieróglifos egípcios.

Uma janela para a crosta antiga

O que distingue Teghaza 001 é a combinação de textura, idade e minerais ígneos, isto é, de origem vulcânica. Ele está entre os três meteoritos marcianos mais antigos conhecidos, mas os outros dois oferecem um retrato mais limitado da história geológica do planeta:

  • ALH84001, de idade parecida, é composto quase inteiramente de um único mineral;
  • "Black Beauty", como é apelidado, formou-se há cerca de 2,1 bilhões de anos e é feito de pequenos fragmentos de rocha vulcânica.

Já Teghaza 001 reúne uma mistura de minerais ígneos que conta como a crosta marciana se formou a partir do resfriamento do magma e, mais tarde, foi modificada por água no subsolo. Essa mineralogia corresponde ao que a sonda Mars Reconnaissance Orbiter observou nas terras altas do sul de Marte, uma região repleta de crateras.

Não é possível saber o ponto exato de onde a rocha saiu, mas os pesquisadores identificaram 13 locais em Marte compatíveis com sua mineralogia e química. Lee Saper, segundo autor do artigo, que fez a pesquisa como pós-doutorando no JPL e hoje trabalha no Centro de Pesquisa Ames da NASA, afirmou que esta é a primeira amostra de uma parte da crosta marciana da qual nunca se teve material. Para ele, a rocha registra interações entre água e rocha e talvez até uma marca da atmosfera de Marte no período em que o planeta perdia água.

Todos os meteoritos marcianos compartilham uma trajetória parecida: foram arrancados da superfície do planeta por um impacto e, depois de uma longa viagem pelo espaço, caíram na Terra. Costumam ser achados em desertos ou planícies geladas, onde se destacam na paisagem. Para confirmar a origem marciana, os cientistas comparam sua composição com dados de missões como as sondas Viking e os jipes-robôs Curiosity e Perseverance.

Datação de alta precisão

Pesquisadores da Universidade do Novo México já haviam identificado a rocha como marciana pelos isótopos de oxigênio, que funcionam como uma espécie de impressão digital química de cada corpo planetário. A princípio, parecia um shergottito, a classe mais comum de meteorito marciano. Liu quase recusou o convite para estudá-lo, mas resolveu dar uma olhada por causa de texturas estranhas e minerais incomuns.

A equipe encontrou cristais de zircão, mineral que guarda pistas sobre a formação de uma rocha e permite datá-la com precisão. Com a ajuda de Francois Tissot, do Caltech, os cientistas usaram um método de datação por rubídio-estrôncio feito diretamente na amostra. Em vez de dissolver todo o material, como nas técnicas tradicionais, a análise examinou grãos minerais individuais na superfície de um fragmento menor que uma unha. Além de rápido e preciso, o método preserva amostras raras para estudos futuros.

Tissot disse que seu laboratório é um dos poucos no mundo capazes de fazer esse tipo de datação e o primeiro a aplicá-la a um meteorito marciano tão antigo. A expectativa é usar a técnica em outros meteoritos e em amostras trazidas de planetas, luas e asteroides.

Sinais de água

Os resultados mostraram que a rocha foi alterada por água marciana por volta de 4,1 bilhões de anos atrás, o que indica que ela se formou ainda antes. Os isótopos de oxigênio, a textura e a química dos minerais apontam para um ciclo da água bem mais dinâmico no Marte primitivo.

Para os autores, os artigos deste ano são apenas o começo. Segundo Liu, a equipe só arranhou a superfície do que o meteorito pode revelar.

Fonte: NASA – NASA-funded Study Details One of Oldest Mars Meteorites Ever Found

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