A missão TRACERS (sigla em inglês para Satélites Gêmeos de Reconhecimento de Reconexão e Eletrodinâmica da Cúspide), da NASA, divulgou seus primeiros resultados científicos. Em artigo publicado no Journal of Geophysical Research, os pesquisadores analisam as observações feitas ao longo do primeiro ano de operação e oferecem pistas sobre como o clima espacial afeta o campo magnético da Terra.
As duas sondas da missão foram lançadas no ano passado com um objetivo específico: estudar como o vento solar interage com o escudo magnético do planeta por meio de um fenômeno violento chamado reconexão magnética.
O que é a reconexão magnética
O Sol libera continuamente um fluxo de partículas eletricamente carregadas, o vento solar, que carrega consigo o campo magnético da estrela. Segundo a NASA, essas partículas viajam a mais de 1 milhão de milhas por hora (cerca de 1,6 milhão de km/h). Quando esse material encontra a magnetosfera, a região dominada pelo campo magnético terrestre, ocorre um choque na fronteira entre ela e o espaço, chamada magnetopausa.
Nessa colisão, a energia se acumula até que as linhas de campo magnético se rompem e se reconectam, formando novas linhas. O processo libera grande quantidade de energia e pode lançar partículas próximas em alta velocidade diretamente para a atmosfera da Terra.
Embora os cientistas já conheçam o fenômeno, ainda há perguntas em aberto, como a forma pela qual a energia é transferida durante a reconexão e a maneira como a magnetopausa reage. Um ponto considerado essencial é descobrir o que pesa mais nessa reação: o local onde a reconexão acontece ou a taxa com que ela ocorre.
Duas sondas, uma atrás da outra
Para investigar essa questão, a TRACERS usa dois satélites que voam um atrás do outro em uma órbita sincronizada com o Sol. Nesse trajeto, eles atravessam as chamadas cúspides polares, regiões sobre os polos magnéticos norte e sul onde as linhas do campo terrestre convergem como funis. Essas áreas canalizam as partículas do vento solar e as concentram em uma pequena porção da alta atmosfera.
Ao passar repetidamente pela cúspide sul, as sondas registram eventos de reconexão. Como são duas, os cientistas podem comparar as medições de cada uma e observar a rapidez com que o processo muda e evolui.
Os dados obtidos pelos instrumentos chamados Analisadores de Íons da Cúspide indicam que a reconexão magnética é, em grande parte, um processo espacial. Em outras palavras, o que muda é o local onde a reconexão está acontecendo, que se desloca, e não o fenômeno em si ao longo do tempo. A equipe ressalta que medições futuras ajudarão a confirmar esse resultado.
Stephen Fuselier, vice-investigador principal da missão e responsável por instrumentos no Southwest Research Institute, em San Antonio, afirmou que a análise deu à equipe uma visão mais clara do comportamento das partículas do vento solar e de sua ligação com os eventos de reconexão, e classificou o trabalho como um primeiro passo importante. Já o investigador principal, David Miles, da Universidade de Iowa, destacou a colaboração da equipe e disse estar ansioso pelo que as próximas medições vão revelar.
Contratempo superado e missão estendida
Logo após o lançamento, um dos satélites apresentou problemas, e a equipe trabalhou para restabelecer o contato e normalizar a coleta de dados. Hoje, as duas sondas observam a cúspide sul rotineiramente, várias vezes por dia. Em setembro, a NASA aprovou uma extensão da missão principal, que deve seguir estudando a reconexão até a primavera de 2027 no hemisfério norte.
Entender como a reconexão varia é importante porque ela é o elo fundamental entre o vento solar e o ambiente espacial ao redor da Terra. Esse conhecimento ajuda a prever melhor as tempestades geomagnéticas, que podem afetar:
- a segurança de astronautas em órbita próxima à Terra;
- as redes de energia elétrica;
- os sistemas de comunicação.
A missão é liderada pela Universidade de Iowa, com apoio do Southwest Research Institute, e gerida pelo escritório do Programa Explorers de Heliofísica, no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA. Também lideram instrumentos a bordo a Universidade da Califórnia em Los Angeles e a Universidade da Califórnia em Berkeley.
Fonte: NASA Science — NASA’s TRACERS First Results Offers Peek into Violent Magnetic Process
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