Olhe para a Lua hoje e daqui a dez anos: as manchas escuras estarão no mesmo lugar. Para quem observa da Terra, a Lua mostra sempre a mesma face. Isso não quer dizer que ela não gire. Gira, mas num ritmo muito especial.
Uma volta em torno de si para cada volta na Terra
A Lua leva cerca de 27,3 dias para girar uma vez em torno do próprio eixo e praticamente o mesmo tempo para completar uma volta ao redor da Terra. Como os dois movimentos têm o mesmo período, o mesmo lado fica sempre voltado para nós. Esse acoplamento se chama rotação sincronizada.
Um jeito fácil de entender: ande em círculo ao redor de uma cadeira, sempre olhando para ela. Ao completar a volta, você também girou uma vez em torno de si, mas a cadeira só viu o seu rosto.
Como isso aconteceu
No começo, a Lua girava mais rápido. A gravidade da Terra deforma levemente a Lua, criando um pequeno "bojo" na direção do nosso planeta. Enquanto a Lua girava, a Terra puxava esse bojo, funcionando como um freio. Ao longo de milhões de anos, esse atrito de marés foi desacelerando a rotação até que ela ficasse travada com a órbita.
A rotação sincronizada é comum: a maioria das grandes luas do Sistema Solar mostra sempre a mesma face ao seu planeta.
O mesmo efeito age sobre a Terra, só que bem mais devagar: a Lua também freia a rotação do nosso planeta, e os dias ficam um pouquinho mais longos com o passar dos séculos.
O lado oculto não é escuro
O lado que não vemos daqui costuma ser chamado de "lado escuro", mas recebe tanta luz do Sol quanto o lado visível. Quando é Lua nova para nós, ele está todo iluminado. O nome correto é lado oculto ou lado afastado.
Esse lado só foi visto pela primeira vez em 1959, em fotos da sonda soviética Luna 3. A surpresa foi que ele é bem diferente: tem muito menos "mares", as grandes planícies escuras de lava que formam o desenho familiar da Lua. A crosta é mais espessa desse lado, o que dificultou a subida de lava no passado.
Em 2019, a sonda chinesa Chang'e 4 fez o primeiro pouso no lado oculto, e em 2024 a Chang'e 6 trouxe de lá as primeiras amostras para a Terra.
O balanço que revela um pouco mais
Apesar do travamento, conseguimos ver um pouco além da metade da Lua. Como a órbita é levemente elíptica, a velocidade da Lua varia ao longo do mês, enquanto a rotação se mantém constante; isso a faz parecer balançar de um lado para o outro. A órbita também é inclinada, o que deixa ver um pouco além dos polos. Esse conjunto de efeitos, a libração, permite observar da Terra cerca de 59% da superfície lunar.
Quem acompanha a Lua com binóculo ao longo de várias noites consegue notar crateras perto da borda que aparecem e somem conforme esse balanço.