A astronomia moderna depende de telescópios enormes, caros e instalados nos melhores céus do planeta, em montanhas altas e secas, longe das luzes. Nenhum país consegue manter sozinho uma estrutura assim para todas as suas necessidades. Por isso, a maioria dos grandes telescópios é construída em consórcios internacionais, e o Brasil participa de vários.
SOAR: um telescópio com participação brasileira
O SOAR (Southern Astrophysical Research Telescope) tem espelho de 4,1 metros e está no Cerro Pachón, nos Andes chilenos, a cerca de 2.700 metros de altitude. Foi inaugurado em 2004 e é operado em parceria pelo Brasil, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e por instituições dos Estados Unidos, como o laboratório nacional NOIRLab e universidades americanas.
Como sócio, o Brasil tem direito a uma fração significativa das noites de observação, distribuídas a pesquisadores brasileiros por meio de chamadas coordenadas pelo Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). Instituições brasileiras também desenvolveram instrumentos para o SOAR, como espectrógrafos, que separam a luz dos astros em cores para estudar a sua composição e o seu movimento.
Participar da construção de instrumentos é tão importante quanto ter tempo de observação: forma engenheiros e cientistas e traz tecnologia para o país.
Gemini: dois olhos de 8 metros
O Observatório Gemini tem dois telescópios gêmeos com espelhos de 8,1 metros: um no Mauna Kea, no Havaí, e outro também no Cerro Pachón, no Chile. Juntos, cobrem o céu dos dois hemisférios. O Brasil participa do Gemini desde os anos 1990, ao lado de países como Estados Unidos, Canadá, Argentina e Chile, entre outros, o que dá aos astrônomos brasileiros acesso a instrumentos de ponta em grandes telescópios.
GMT: um gigante em construção
O próximo salto é o Telescópio Gigante Magalhães (GMT, na sigla em inglês), em construção no Observatório de Las Campanas, no Chile. Ele combina sete espelhos de 8,4 metros cada, formando uma área coletora equivalente a um espelho de cerca de 25 metros. Deve produzir imagens muito mais nítidas que as do Hubble.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é uma das instituições parceiras do projeto. A participação garante a pesquisadores do estado acesso a uma parte do tempo de observação quando o telescópio entrar em operação.
Rubin e outros projetos
Cientistas brasileiros também participam do levantamento do Observatório Vera C. Rubin, no Chile, que começou a divulgar imagens em 2025 e vai fotografar todo o céu do Sul repetidamente durante dez anos. A participação, organizada por meio do Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (LIneA), envolve o processamento e a análise da enorme quantidade de dados produzida.
O que ficou pelo caminho
Em 2010, o Brasil chegou a assinar o acordo de adesão ao Observatório Europeu do Sul (ESO), dono de alguns dos maiores telescópios do mundo, também no Chile. O processo de adesão, porém, não foi concluído, e o país não se tornou membro. O episódio é lembrado na comunidade astronômica como uma oportunidade perdida.
Por que isso importa
O acesso a grandes telescópios define o tipo de pergunta que os cientistas de um país conseguem responder. Com parcerias como SOAR, Gemini e GMT, astrônomos brasileiros publicam pesquisas sobre exoplanetas, galáxias distantes, buracos negros e estrelas, competindo em pé de igualdade com colegas do mundo todo.