quinta-feira, 29 de outubro de 2026Minguante gibosa hoje

O Brasil nos grandes telescópios do mundo: SOAR, Gemini e o futuro GMT

Sem os céus secos dos Andes em casa, os astrônomos brasileiros observam por meio de parcerias internacionais. O país é sócio do telescópio SOAR, participa do Gemini e tem, por meio da FAPESP, uma fatia do Telescópio Gigante Magalhães.

Galáxia espiral fotografada pelo telescópio Hubble. Grandes telescópios em solo, como os do Chile, estudam objetos assim com espectrógrafos.
Galáxia espiral fotografada pelo telescópio Hubble. Grandes telescópios em solo, como os do Chile, estudam objetos assim com espectrógrafos. · Imagem: NASA / GSFC

A astronomia moderna depende de telescópios enormes, caros e instalados nos melhores céus do planeta, em montanhas altas e secas, longe das luzes. Nenhum país consegue manter sozinho uma estrutura assim para todas as suas necessidades. Por isso, a maioria dos grandes telescópios é construída em consórcios internacionais, e o Brasil participa de vários.

SOAR: um telescópio com participação brasileira

O SOAR (Southern Astrophysical Research Telescope) tem espelho de 4,1 metros e está no Cerro Pachón, nos Andes chilenos, a cerca de 2.700 metros de altitude. Foi inaugurado em 2004 e é operado em parceria pelo Brasil, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e por instituições dos Estados Unidos, como o laboratório nacional NOIRLab e universidades americanas.

Como sócio, o Brasil tem direito a uma fração significativa das noites de observação, distribuídas a pesquisadores brasileiros por meio de chamadas coordenadas pelo Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). Instituições brasileiras também desenvolveram instrumentos para o SOAR, como espectrógrafos, que separam a luz dos astros em cores para estudar a sua composição e o seu movimento.

Participar da construção de instrumentos é tão importante quanto ter tempo de observação: forma engenheiros e cientistas e traz tecnologia para o país.

Gemini: dois olhos de 8 metros

O Observatório Gemini tem dois telescópios gêmeos com espelhos de 8,1 metros: um no Mauna Kea, no Havaí, e outro também no Cerro Pachón, no Chile. Juntos, cobrem o céu dos dois hemisférios. O Brasil participa do Gemini desde os anos 1990, ao lado de países como Estados Unidos, Canadá, Argentina e Chile, entre outros, o que dá aos astrônomos brasileiros acesso a instrumentos de ponta em grandes telescópios.

GMT: um gigante em construção

O próximo salto é o Telescópio Gigante Magalhães (GMT, na sigla em inglês), em construção no Observatório de Las Campanas, no Chile. Ele combina sete espelhos de 8,4 metros cada, formando uma área coletora equivalente a um espelho de cerca de 25 metros. Deve produzir imagens muito mais nítidas que as do Hubble.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é uma das instituições parceiras do projeto. A participação garante a pesquisadores do estado acesso a uma parte do tempo de observação quando o telescópio entrar em operação.

Rubin e outros projetos

Cientistas brasileiros também participam do levantamento do Observatório Vera C. Rubin, no Chile, que começou a divulgar imagens em 2025 e vai fotografar todo o céu do Sul repetidamente durante dez anos. A participação, organizada por meio do Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (LIneA), envolve o processamento e a análise da enorme quantidade de dados produzida.

O que ficou pelo caminho

Em 2010, o Brasil chegou a assinar o acordo de adesão ao Observatório Europeu do Sul (ESO), dono de alguns dos maiores telescópios do mundo, também no Chile. O processo de adesão, porém, não foi concluído, e o país não se tornou membro. O episódio é lembrado na comunidade astronômica como uma oportunidade perdida.

Por que isso importa

O acesso a grandes telescópios define o tipo de pergunta que os cientistas de um país conseguem responder. Com parcerias como SOAR, Gemini e GMT, astrônomos brasileiros publicam pesquisas sobre exoplanetas, galáxias distantes, buracos negros e estrelas, competindo em pé de igualdade com colegas do mundo todo.

Quem escreveuMesa de CiênciaTextos que explicam, sem pressa, como o universo funciona e como a ciência chegou até aqui.

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