O Brasil não costuma aparecer nas manchetes sobre corrida espacial, mas tem uma história longa na área: centros de lançamento, foguetes de sondagem, satélites próprios e em parceria, um instituto de pesquisas espaciais reconhecido internacionalmente e um astronauta. A atividade é coordenada pela Agência Espacial Brasileira (AEB), criada em 1994.
Alcântara, um lugar privilegiado
O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, foi criado na década de 1980. Fica a cerca de 2 graus ao sul da linha do Equador, uma das posições mais vantajosas do mundo para lançar foguetes.
A razão é a rotação da Terra. No Equador, a superfície do planeta se move a cerca de 1.670 quilômetros por hora de oeste para leste. Um foguete lançado para o leste a partir dali ganha essa velocidade de graça, o que economiza combustível, principalmente para colocar satélites em órbitas equatoriais, como as dos satélites geoestacionários de comunicação. A localização no litoral também permite que os foguetes subam sobre o mar, longe de áreas povoadas.
Lançar perto do Equador pode significar mais carga útil com o mesmo foguete, uma vantagem disputada no mercado de lançamentos.
Tragédia e recomeço
A história de Alcântara tem um capítulo triste. Em 22 de agosto de 2003, durante os preparativos para o terceiro lançamento do Veículo Lançador de Satélites (VLS-1), um dos motores foi acionado por acidente na plataforma. A explosão matou 21 técnicos e engenheiros, no maior acidente da história do programa espacial brasileiro. O projeto do VLS foi encerrado anos depois.
Em 2019, o Brasil assinou com os Estados Unidos um Acordo de Salvaguardas Tecnológicas, aprovado pelo Congresso no mesmo ano, que permite lançamentos de foguetes e satélites com componentes americanos a partir de Alcântara, abrindo o centro para empresas estrangeiras. Em março de 2023, a empresa sul-coreana Innospace fez dali o primeiro lançamento comercial da história do centro, com um foguete suborbital de teste.
O primeiro brasileiro no espaço
Em 30 de março de 2006, o tenente-coronel da Força Aérea Marcos Pontes se tornou o primeiro brasileiro no espaço, a bordo de uma nave russa Soyuz rumo à Estação Espacial Internacional, onde realizou experimentos científicos brasileiros.
Satélites feitos aqui
Em 28 de fevereiro de 2021, foi lançado da Índia o Amazonia-1, primeiro satélite de observação da Terra projetado, integrado, testado e operado pelo Brasil, por meio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A partir de uma órbita a cerca de 750 quilômetros de altitude, ele fotografa a mesma região a cada poucos dias e ajuda a monitorar o desmatamento na Amazônia e o uso do solo em todo o país.
Antes dele, o Brasil já operava, em parceria com a China, a família de satélites CBERS, e desenvolveu os satélites de coleta de dados SCD-1 e SCD-2, lançados nos anos 1990, que retransmitem informações de estações meteorológicas e ambientais espalhadas pelo território.
Os desafios
O programa espacial brasileiro enfrenta, há décadas, orçamentos pequenos e instáveis, o que atrasa projetos e dificulta manter equipes especializadas. Ao mesmo tempo, o país tem vantagens raras: território continental para monitorar, uma das melhores posições do planeta para lançamentos e instituições com tradição em ciência espacial. Na seção Brasil no espaço, contamos as histórias dessas instituições e das pessoas por trás delas.