Em noites escuras, longe das cidades, uma faixa leitosa atravessa o céu. É a Via Láctea vista de dentro: o disco da galáxia em que vivemos, visto de lado. Os gregos antigos ligavam essa faixa ao leite derramado pela deusa Hera, e é daí que vem o nome. Hoje sabemos que aquele brilho difuso vem de bilhões de estrelas distantes demais para serem vistas separadamente.
Os números da nossa galáxia
- Tamanho: o disco principal tem cerca de 100 mil anos-luz de diâmetro. A luz, a mais rápida das velocidades, levaria 100 mil anos para atravessá-lo.
- Estrelas: as estimativas vão de 100 bilhões a 400 bilhões. A incerteza vem da dificuldade de contar estrelas pequenas e fracas.
- Espessura: apesar do diâmetro enorme, o disco é fino, com cerca de mil anos-luz de espessura na região do Sol.
- Massa: a maior parte não está nas estrelas, mas num halo invisível de matéria escura que envolve a galáxia.
Uma espiral com barra
Como estamos dentro dela, desenhar o mapa da Via Láctea é como tentar descobrir a planta de uma casa sem sair de um dos quartos. Combinando observações de rádio, infravermelho e as posições de bilhões de estrelas medidas pelo satélite europeu Gaia, os astrônomos concluíram que ela é uma espiral barrada: tem uma barra alongada de estrelas no centro, de onde saem braços espirais.
Onde fica o Sol
O Sol está longe do centro, a cerca de 26 mil anos-luz, num braço menor chamado Braço de Órion. Não estamos num lugar especial, e isso talvez seja uma vantagem: a região central é mais densa, com mais explosões de estrelas e mais radiação.
Desde que surgiram os primeiros dinossauros, o Sol deu pouco mais de uma volta em torno do centro da galáxia.
O Sol e todo o Sistema Solar giram em torno do centro galáctico a cerca de 230 quilômetros por segundo, mais de 800 mil quilômetros por hora. Mesmo assim, uma volta completa leva cerca de 230 milhões de anos, o chamado ano galáctico.
O centro da galáxia
No centro, na direção da constelação de Sagitário, há um aglomerado densíssimo de estrelas e o buraco negro Sagitário A*, com cerca de 4 milhões de massas solares. A luz visível do centro não chega até nós, bloqueada por nuvens de poeira; ele é estudado em rádio, infravermelho e raios X.
Vizinhas que o Brasil vê
A Via Láctea tem dezenas de galáxias satélites, pequenas galáxias que giram ao redor dela. As maiores são a Grande e a Pequena Nuvem de Magalhães, visíveis a olho nu no céu do Hemisfério Sul como duas manchas que parecem pedaços soltos da Via Láctea. Para quem está no Brasil, elas aparecem altas no céu nas noites de primavera e verão, ao sul.
E o melhor: o centro da Via Láctea passa bem alto no céu brasileiro entre o outono e o inverno. Poucas regiões do mundo têm uma vista tão boa da nossa própria galáxia.